Homens que não sabem amar


O que se passa na mente dos sedutores incapazes de manter uma relação?


Na hora da conquista eles não medem esforços na sedução.
Mas, após conquistada desaparecem e deixam a dúvida: afinal o que aconteceu?


São cada vez mais as histórias de  mulheres que caíram na rede de homens que fazem de tudo para as conquistar e, depois simplesmente, desaparecem sem darem qualquer explicação. Segundo o especialista, norte americano, Steve Carter, alguns destes homens podem sofrer de fobia ao compromisso.

Mas, como podemos identificar, então, se com quem estamos tem boas intenções ou está pronto para fugir a qualquer momento? Existem diferentes padrões de comportamento nestas pessoas: há aquelas que desaparecem no dia seguinte, as que mudam de atitude em pouco tempo durante a relação (geralmente curta), as que transformam as qualidades da mulher em defeitos de um dia para o outro e as que traem compulsivamente. Qualquer que seja a história, fica evidente a falta de compromisso com a relação.
Um homem com fobia ao compromisso é confuso e confunde as mulheres. Ele vive dividido entre a necessidade de amar e um medo incontrolável de se comprometer”, diz Carter no seu livro, "Homens que não conseguem amar". Carter define este perfil de homem com o que chama de “síndrome de perseguição/pânico”. “Isto quer dizer que ele empreende uma perseguição incansável até sentir que o amor e a reacção da mulher encurralaram-no na relação. No momento em que isso acontece, sente a relação como uma prisão que lhe provoca ansiedade; quando não, pânico total. Antes que a mulher saiba o que está a acontecer, o homem já começou a fugir do compromisso, dela e do amor.
Foi o que aconteceu com Luísa, 31 anos, que até hoje não sabe explicar porque motivo terminou a sua relação com Pedro, um homem dez anos mais velho, que ela conheceu na escola de inglês onde trabalhava. Charmoso e sedutor, Pedro foi insistente até convencê-la a sair com ele. Durante os três meses em que ficaram juntos, ele apresentou-a aos amigos e à avó, por quem tinha sido criado, quando criança, desde que os pais morreram. Pedro disse-lhe que ela era a primeira mulher que levava a conhecer a avó. Tudo parecia maravilhoso até à noite em que ele desapareceu. Tinham combinado que ele a iria buscar ao trabalho para jantar. Mas, o Pedro não apareceu! Inicialmente, a Luísa ficou preocupada. Tentou, várias vezes, contactá-lo pelo telemóvel e para o telefone de casa, mas nada! Esperou quatro horas até que, ainda confusa com a situação, decidiu apanhar um táxi e ir para casa. No dia seguinte, nada de notícias. A Luísa mandou diversos e-mails, mas nada! Pura e simplesmente, o Pedro deixou de atender o telefone e de dar sinais de vida.  

Duas semanas depois viu o Pedro, aos beijos, com uma colega de trabalho. Descobriu que estavam a sair já há uma semana e que ele também a tinha levado para conhecer a avó — com a mesma conversa de que era a primeira mulher que lá ia. Resolveu ligar, mais uma vez, para tentar entender o que tinha acontecido. Mas ele não atendeu nem ligou de volta. Poucos meses depois, a Luísa encontrou a tal colega de trabalho e soube que os dois já não estavam juntos. Ainda muito ferida, pela forma como aquele amor, que parecia tão especial tinha terminado, resolveu convidar a colega para um café. Reviu o filme da sua relação nas palavras daquela mulher. As mesmas histórias, as mesmas promessas, o mesmo comportamento de fuga. E, juntas, descobriram que não foram as primeiras a cair no charme de Pedro. E provavelmente não seriam as últimas.
Medo da intimidade 
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de diversos livros, entre eles "Mentes perigosas — O psicopata mora ao lado", também reconhece neste tipo de homens que não consegue amar, um padrão de comportamento que prefere chamar de fobia afectiva. Neste cenário, o homem (ou mulher, uma vez que também há mulheres com este tipo de comportamentos), na realidade, tem um medo profundo de ser rejeitado. “Muitas vezes a pessoa quer aquela relação, mas não consegue lidar com a intimidade”, diz. Mas como é possível que um homem com esse grau de insegurança seja capaz de se apresentar tão confiante na fase da conquista? “Por serem profundamente inseguras, estas pessoas tendem a construir a sua auto estima com base numa personagem segura, bem-resolvida, sociável. Mas temem constantemente que, com a intimidade, a sua verdadeira identidade e/ou fraqueza seja descoberta e sejam rejeitadas. O que fazem, então, é terminar a relação antes de serem rejeitados como acreditam que serão”, afirma Ana Beatriz.

Outra explicação possível, para este tipo de comportamentos, segundo a psiquiatra, é a dependência afectiva da paixão. É possivelmente onde se encaixam as histórias de homens infiéis, que trocam sucessivamente de parceiras. “Existem pessoas viciadas na paixão, naquela sensação do inicio de uma relação, na adrenalina. É quase como uma dependência em drogas ou álcool. Em geral, são aqueles que nunca toleraram a frustração, é como se a vida afectiva tivesse sempre que estar a 200 km/h. Quando a relação começa a entrar na fase madura, quando a paixão vira amor, surge o desinteresse”, diz a especialista. É aquele tipo de pessoa que, sempre que começa uma nova relação, acredita que, finalmente, encontrou o amor da sua vida. “Não fazem isso de forma consciente, não entram na vida de alguém para fazer mal. Apenas acabam por perder o interesse porque a chama virou brasa”, completa ela. 
A paixão, segundo algumas linhas de pesquisa, dura entre nove meses e dois anos. E as pessoas que vivem só de paixões são tipicamente imaturas. Mas isso, ao contrário do que muita gente pensa, não é um desvio de carácter e sim uma deficiência no desenvolvimento emocional e psicológico. É o correspondente masculino à mulher que vive em busca do homem perfeito, do príncipe encantando que não existe. Mas tanto este caso como o dos fóbicos ao compromisso podem ser “curados”. “Em geral, é difícil a pessoa ultrapassar a dificuldade sozinha. Mas como a base deste comportamento está relacionada com conflitos internos, uma vez resolvidas estas questões, geralmente com terapia, eles podem tornar-se homens prontos para o amor maduro”, diz a especialista.

Casos extremos: a psicopatia leve 
Pode não ser fácil, mas estes homens que não sabem amar podem aprender a fazê-lo, já que têm a noção de sentimentos. Entretanto, há casos extremos de homens que simplesmente são incapazes de amar. Podem até saber o significado da palavra amor, mas não conhecem a sensação que provoca — e isso não só nas relações amorosas. Eles simplesmente não conseguem estabelecer relações afectivas com a família, amigos, filhos, etc.
Nascem com um distúrbio, um erro no funcionamento mental que os torna incapazes de compreender sentimentos como empatia, culpa, remorso e amor. E a ausência desses sentimentos é o que caracteriza uma espécie bem mais nociva e perigosa de homens que não sabem amar: os psicopatas leves ou sociopatas. Parece uma terminologia exagerada, já que tendemos a associar psicopatia a casos de assassinos em série ou crimes passionais. Mas os primeiros capítulos do livro "Mentes perigosas" tratam precisamente de um tipo de psicopata menos conhecido e, possivelmente, mais comum do que os que chegam aos jornais. São pessoas que dificilmente teriam coragem de matar alguém, mas que, assim como os outros, agem friamente em benefício dos seus interesses sem se preocuparem nas consequências dos seus atos. “No campo das relações amorosas, um psicopata usa qualquer pessoa como um instrumento ou troféu que ele se orgulha em exibir”, diz Ana Beatriz. “São casos menos comuns do que os com outros tipos de deficiência afectiva, como a fobia ou a dependência afectiva da paixão, mas também são os mais nocivos.
Neste padrão de comportamento, o homem mostra-se bastante amoroso, carinhoso e atencioso até conseguir o que quer. Ele faz de tudo para alcançar o seu objectivo, que pode ser material ou a necessidade de posse (muitas vezes confundida com amor excessivo).
Todos os psicopatas agem num padrão de quatro etapas no processo de caça:
- Na primeira, ele estuda a vítima, conhece os seus gostos e fraquezas. Geralmente procura quem esteja fragilizado, porque é mais fácil de dominar. Uma viúva recente, uma mulher que tenha saído de uma relação difícil, que tenha perdido um ente querido. No fundo, alguém que ele consiga manipular. 
- Depois de estudar a vítima, ele começa a fase da absorção na qual, sabendo o que a vítima quer, faz tudo para a satisfazer, ganhando, assim, a sua confiança e amor. É aqui também que começa o controle excessivo sobre ela, afastando-a dos amigos, do trabalho ou do que quer que seja que possa afastá-la dele e fazê-la desconfiar de suas intenções. 
- O próximo passo é a exploração, em que o psicopata absorve toda a energia psíquica e física da sua presa. Ele reestrutura a vida da parceira segundo os seus interesses. É nessa etapa que a mulher sofre mais, segundo Ana Beatriz, porque começa a perceber que ele não era quem parecia ser, mas ainda não sabe que está a dormir com o inimigo. Acha que ele está infeliz e começa a fazer de tudo para agradá-lo com medo de perder aquele homem que tanto a ama. 
- A última fase é chamada revelação e horror, quando ele se revela. Em geral, ocorre porque o psicopata já esgotou suas possibilidades naquela relação e encontrou outra vítima, ou então já tem um domínio tão grande sobre a mulher que sabe que mesmo mostrando a sua crueldade não irá perdê-la — ou porque já tem um filho, ou por saber que ela depende dele financeiramente, ou ainda porque tem em mãos argumentos de chantagem.

Este tipo de pessoas não tem a noção do sentimento, de compaixão. 
É realmente alguém que não sabe o que é amor. E nunca saberá.



Como identificar um homem que não consegue assumir um compromisso
No inicio da relação ... 
• Ele investe exageradamente e parece estar mais interessado em você do que você nele

• Tem um histórico conturbado com mulheres, mas fá-la acreditar que com você será diferente
• Faz tudo o que pode para impressioná-la: se tem dinheiro, gasta; se tem algum talento, exibe-o; se é inteligente, mostra-o

• Age como se precisasse mais de você do que você dele
Pouco tempo depois ...
• As palavras e acções passam a ser cheias de mensagens ambíguas
• Deixa claro que determinadas áreas importantes da vida dele, como amigos, família e trabalho, são “zonas proibidas” e exclui-a de algumas ou da maioria delas

• Foge dos eventos que incluam a sua família e amigos e evita passar muito tempo com essas pessoas. É como se tivesse certeza de que alguém ali sabe alguma coisa negativa sobre ele 
• Pode deixar pistas de que está interessado ou até mesmo que está a sair com outra mulher

• Se estiver com outra mulher, mente garantindo que você é a pessoa mais importante da vida dele (apesar de não demonstrar isso em gestos e atitudes)

• Apesar de tudo o que diz, nada muda: ele não deixa a relação avançar e recusa-se a falar sobre isso
 “Ele não sabe o que é o amor”
A estudante Camila, 23 anos, aborda até hoje nas suas sessões de terapia a sua experiência amorosa traumática com um homem que se encaixa no perfil de psicopatas leves. O namoro, de sete meses, tinha como marca registrada a manipulação, o interesse e a frieza.
Passei bastante tempo com uma baixa auto estima devido ao meu peso. Estava gorda e isso deixava-me insegura, carente e vulnerável. Quando o Marcos disse que me achava linda e que o meu peso não era importante, é claro que me conquistou. Ele não era bonito, mas era alto, forte, e tinha um porte interessante. Conhecemo-nos por meio de amigos em comum e éramos ambos extrovertidos, gostávamos de sair à noite, enfim, tínhamos afinidades. Eu sempre fui muito mais faladora, falava alto demais, chamo a atenção, mas ele dizia que achava esse o meu charme. A nossa primeira relação sexual foi óptima, combinamos muito no sexo, e isso é algo que valorizo bastante. Não que eu tivesse tido muitos namorados antes dele, mas gosto de sexo e dávamo-nos bem na cama; esse é o principal motivo pelo qual ficámos tanto tempo juntos, imagino. Além disso, todas as mulheres gostam de ser elogiadas e eu ainda mais, pois era muito insegura em relação ao meu corpo. 

Pouco tempo depois, os elogios desapareceram e passaram a defeitos. Todas as declarações de amor transformaram-se em discussões, ciúme excessivo, sentimento de posse e manipulação. Em seguida, vieram as implicações com os meus amigos. Além de pedir para me afastar de muita gente e das brigas sempre que alguém deixava um recado no Orkut — tinha crises de ciúme até do meu sobrinho de cinco anos —, queria-me a viver para ele, em tempo integral. Sabotou a minha alimentação levando-me a comer várias vezes ao McDonald’s "de surpresa, para me agradar", assim como os meus estudos fazendo-me faltar às aulas com chantagens emocionais. 

O Marcos acabou por perder o emprego e era eu quem pagava tudo: viagens, saídas, etc. Cheguei a levá-lo a diversas entrevistas de emprego que ele não mostrava o mínimo esforço para conseguir. Acho que esperava alguma ajuda do meu pai, parecia que achava que era nossa obrigação ajudá-lo — eu a pagar as contas e meu pai a procurar emprego para ele. Descobri que ele andava a mentir quando disse que tinha entrado na faculdade ... nem sequer tinha terminado a secundária. Mesmo assim, incentivei-o a completar os estudos, paguei a matrícula e ofereci-me para estudar com ele. 

Era quase um parasita que paralisava a minha vida, sugava as minhas energias, o meu amor, sem dar nada em troca. É claro que, na época, eu não percebia nada disso. Achava que ele me amava demais. Na verdade, imaginava que nenhum outro homem poderia amar-me tanto, tão baixa que era a minha auto estima. Até o dia em que me obrigou a ter sexo, mesmo sabendo que eu estava com uma infecção urinária fortíssima, que me causava dores, e o médico tinha recomendando não termos relações sexuais por algum tempo. 

Parece que comecei a perceber que o que eu achava que era machismo era, na verdade, sadismo. Não se preocupava com o meu bem-estar. A ficha foi caindo aos poucos... Tinha medo de ficar sozinha, sentia-me culpada de deixar um homem que me amava tanto. Mas parece que naquela noite em que me forçou a fazer sexo me fez perceber que tinha chegado ao limite. É claro que não foi fácil livrar-me dele. 

Quando terminei ele passou a ligar para a minha melhor amiga, para o meu cunhado e até para o meu pai como vitima. Mas um dia explodiu e ameaçou-me de morte. Disse que se não fosse dele, não seria de ninguém. Fiz queixa na policia e consegui uma ordem que o obrigava a manter-se afastado de mim no mínimo 200 metros. Meses depois, desapareceu. 

Hoje, olhando para trás, vejo que me sentia culpada de terminar a relação mesmo sabendo que me fazia mal. Sentia-me culpada de fazê-lo sofrer porque eu realmente o amava. Não sei dizer se o que ele sentia por mim também era amor. Não consigo saber até hoje o que era. Na verdade, acho que ele não sabe o que é amor.


Adaptado do original de Mayra Stachuck, publicado na revista Marie Claire
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