CIÚME



1. Quem é mais ciumento: o homem ou a mulher?

Embora, culturalmente, se associe o ciúme às mulheres a verdade é que existem muitos homens ciumentos. Considero que é um fenómeno presente tanto em homens como mulheres. O tipo de ciúme, e como se manifesta, é que poderá variar. Diz-se, normalmente, que o receio dos homens é serem traídos fisicamente pela mulher, enquanto que, a mulher teme mais uma traição a nível emocional. Esta traição no homem é interpretada, muitas vezes, como não ser tão homem como o outro (muito ligado à masculinidade). Os homens ciumentos tende a ser mais violentos, ao passo que as mulheres ciumentas têm por comportamento, normalmente, questionar constantemente o parceiro sobre a sua genuína fidelidade e amor por elas.

2. O ciúme atrapalha, de facto, as relações?

Sem dúvida que pode atrapalhar, imagine o que é viver numa relação onde por mais sincera que seja, o outro duvida constantemente da sua verdade. Imagine o que é ser “perseguida 24 horas/dia”. Para não falarmos de situações de violência (verbal ou física) que por vezes podem existir.

3. Que complicações pode trazer os ciúmes para a vida familiar?

O que de início até pode ser agradável, isto é, o outro (o ciumento) “mostrar que gosta de nós” com as ditas “cenas de ciúmes”, perguntando “Onde estivemos? Com quem? A fazer o quê?”, etc. Aos pouco pode levar a um afastamento progressivo e ao término da relação, muitas vezes, de forma agressiva.

4. O ciúme deve ser encarado como uma doença quando obsessivo?

Essa parece-me ser a grande questão: sabermos qual é o limite entre o que é normal e o que é patológico. De qualquer forma, quando este sentimento se torne insuportável para ambas as partes, estamos perante algo que está mais a prejudicar do que a favorecer a relação.

Quando o ciumento duvida constantemente do parceiro, entra num ciclo com receio de perder o outro e procurar controlá-lo cada vez mais. Isto poderá fazer com que o/a companheira/o sinta que o seu espaço pessoal está a ser invadido, sentindo-se magoado/a pelo comportamento que o ciumento está a ter o que poderá fazer com que se afaste progressivamente da relação. É nesta altura que ciumento começa a sentir este afastamento e investe ainda mais no controlo do outro e no seu receio de ser abandonado, podem surgir pensamentos como “tinha razão, ela já não me liga”; “ela anda com outro de certeza…”,etc. Muitas vezes, este ciclo acaba num grande sofrimento de ambas as partes.

Se o ciúme surge do desejo pelo outro, o que o alimenta é a frustração de não conseguir controlá-lo. Em casos extremos, esta noção de que não se consegue controlar o outro pode dar azo à violência ou até mesmo ao crime, aí sem dúvida, estamos perante um fenómeno patológico.


5. Muitos encaram o ciúme como prova de honra. Concorda?

Normalmente, o ciúme é alimentado pelo medo de perder algo que se tem, ou se deseja ter. Isso pode significar que existe um interesse no compromisso e na continuação da relação. Atenção, refiro “interesse” e não “amor”, pois pode haver interesse mas não haver amor, mas também pode ser um ciúme por amor. Ou seja, nem todos os ciumentos estão perdidos de amor pela/o companheiro/a, pode haver uma ciúme ligado a outros aspectos, tais como dificuldade em lidar com a rejeição, receio de ficar sozinho, insegurança, interesses financeiros, etc.

Existem mesmo pessoas que consideram que onde há amor tem de haver ciúme … porque este representa o sentimento de posse e de não querer perder o que se tem.




Nota: este texto é parte de uma entrevista que dei à jornalista Andreia Martins do Jornal 24 horas
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